O chamado para o ministério da Palavra

Nas Escrituras, do começo ao fim, Deus é o Senhor que chama. Ele chama graciosamente pecadores ao arrependimento e à fé em Cristo. Por obra e graça do Espírito Santo, aqueles que anteriormente estavam mortos em seus pecados, que eram escravos do mundo, da carne e do diabo, são chamados e regenerados para viver uma nova vida em Cristo, chamados para provarem o poder da vida vindoura, já nesta vida, chamados a descansarem na esperança da glória eterna.

Deus também chama estes pecadores regenerados e justificados para participar da renovação da criação. Neste sentido, cada cristão tem um chamado especial para desempenhar na preparação para a renovação da criação. Este chamado também é conhecido nas Escrituras como o sacerdócio real dos cristãos. Todos os chamados em Cristo são chamados para desempenhar sua vocação como vocação sacerdotal. Neste sentido, então, todo chamado é um sacerdócio santo. A mãe, o pai, o filho, o engenheiro, o arquiteto, o motorista, o professor, o mestre de obras, o médico, o marceneiro, o músico, sendo cristãos, são chamados para viver para a glória de Deus, como sacerdócio santo.

A partir do conceito do sacerdócio de todos os cristãos, aprendemos que o Novo Testamento repudia totalmente qualquer tipo de clericalismo. Justamente porque todos os cristãos são sacerdotes. Não existe fundamento bíblico para a idéia de que alguns cristãos são sacerdotes e outros não. Todos os cristãos são sacerdotes, mas com diferentes funções. Neste sentido, Deus, graciosamente, chama alguns membros desta santa companhia sacerdotal para fazer aquilo que nem os anjos fazem: pregar o evangelho, as boas novas da livre graça de Deus, que justifica pecadores por causa da obra de Cristo na cruz. E estes, chamados para pregar, ensinar e cuidar do povo de Deus são sacerdotes tanto quanto todos os demais cristãos o são, mas, paradoxalmente, foram chamados para desempenhar a mais importante tarefa que existe: expor fielmente as Escrituras, edificar a igreja, preparando os cristãos para viver bem e apontando para estes os novos céus e nova terra.

Esse chamado é uma obra interna de Deus, que chama os servos da Palavra. E embora seja interno, o chamado para o ministério inevitavelmente virá acompanhado por um testemunho externo. Ou seja, aqueles chamados para a pregação da Palavra demonstrarão dons e aptidões para o exercício do ministério. Eles são equipados pelo Espírito para pastorear, evangelizar, pregar e ensinar – e frutos visíveis serão evidenciados por conta desse chamado interno. E será confirmado diante da igreja este chamado interno, por conta dos frutos externos da obra da graça que já aconteceu interiormente. Por isto, a necessidade de se testar aqueles que afirmam serem chamados: estes devem evidenciar ter dons ministeriais – pregando, evangelizando, confortando – antes mesmo de serem indicados para uma escola teológica. Até porque não é uma escola teológica que forma pastores. São pastores que formarão outros pastores, e esses servirão à igreja de Cristo.

E ainda que pastores sejam formados por outros pastores, o ensino teológico não pode ser desprezado. Escolas teológicas são importantes. Aqueles que foram chamados desejarão se aprimorar para desempenharem sua vocação, e buscarão preparo nessas escolas – enquanto são mentoreados por seus pastores. Neste sentido, uma escola teológica deve ser o berçário dos futuros pastores. E um bom critério para julgar a qualidade dessa escola é buscar respostas para algumas perguntas primordiais: Essa escola oferece uma boa formação teológica? Os alunos são firmados na fé ortodoxa? A piedade é desenvolvida e nutrida? São preparados para a titânica luta por corações e mentes que será travada por toda sua carreira ministerial? Reafirmando: são pastores que formarão outros pastores; será caminhando com pastores mais experientes que os futuros pastores aprenderão a pregar, ensinar, visitar, aconselhar e fazer bem tudo o mais que o chamado pastoral exige. Mais do que isto: serão pastores, servindo como modelos, que atrairão outros pastores para o ministério. Foi isto que William Perkins (1558-1602) ensinou em seu clássico The Art of Prophesying: “Se os ministros são poucos em número, então faça tudo o que puder para aumentar esse número. Quanto mais ministros, menor o fardo posto sobre cada ministro individualmente. Assim, que cada ministro em seu ensino e em sua conversação trabalhe de tal modo que honre o seu chamado, a fim de que outros possam ser atraídos a partilhar de seu amor pelo ministério”.

13 Comentários para “O chamado para o ministério da Palavra”

  1. Caio 19 Março 2009 às 16:47 #

    Realmente, só é possível conciliar bem a orotodoxia com a espiritualidade quando a escola é feita por pastores que desejam treinar outros pastores.
    No próximo ano pretendo ingressar na minha preparação no Seminário Teológico Servo de Cristo, mas antes de tomar essa decisão busquei informações em outros locais tendo como guia principal a ortodoxia da doutrina, porém acabei me deparando com a questão da espiritualidade que também é essencial.
    O que você acha de instituições (de graduação, pós, doutorado etc.) que tem como principal interesse capacitar o aluno academicamente, sem se preocupar com os recursos ministeriais?

  2. Franklin Ferreira 19 Março 2009 às 16:48 #

    Oi, Caio,
    Acho que vc escolheu bem onde estudar; o Servo de Cristo é um ótimo seminário.

    Eu, particularmente, só veja razão de ser numa escola teológica se ela tiver como alvo a capacitação de obreiros para servir em alguma área do ministério cristão: pastorado, docência, capelania, etc. E como preparar futuros obreiros num ambiente sem devoção ou paixão por Cristo?

    Espero que tenha respondido sua pergunta.

    Abs
    Franklin

  3. Alberto Costa 19 Março 2009 às 16:49 #

    Franklin,
    Algumas posturas são requeridas do pastor formador de pastores, a meu ver:
    • “largar o osso” ou, em bom hebraico, “cursar MBA em Gestão Estratégica de Povo com o sogrão” – que implica não querer ser tudo para todos, mas dedicar-se a ensinar um que ensina outros que ensinam outros (II Tim 2:2, que é uma paráfrase da “epístola” de Jetro a Moisés, Êx 18:13-23 – interessante que Paulo não lia Paulo, ele lia Moisés, aquele cara da “dispensação da lei”; alguém esqueceu de contar a ele que aquela dispensação havia sido revogada e que a igreja era “do novo testamento”);
    • reconhecer que “ministério dos santos” não cabe na seção “administração eclesiástica” da biblioteca pastoral ou da igreja – é necessário andar / sentar com o sapateiro, com o engenheiro, com o consultor, com o médico, com o vendedor, com o professor, com o estudante, nunca no gabinete pastoral (que deveria servir apenas para ler e orar) e, sim, lá, na oficina ou escritório do ministro potencial, de dia ou de noite, ensinar-lhe o Evangelho que o capacita para servir – é lá que se descobrem os potenciais pastores, não nos programas de sábado da união de adolescentes e nem no ensaio da banda;
    • deixar (e capacitá-los para isso) os homens ensinarem, aconselharem e repreenderem seus filhos e ensinarem suas mulheres (pastor que gasta tempo ensinando mulher ou adolescente que tem marido ou pai crente está procurando sarna para coçar-se – e descartando suas prioridades; depois reclama de solidão no “ministério”);
    • um assunto tão importante quanto a integração dos gentios à igreja de Jerusalém, os apóstolos entregaram a homens cheios do Espírito Santo e da Palavra, porque o negócio deles era a pregação e a oração (Atos 6) – pastor formador de pastores precisa parar de coordenar reuniões de diretoria para decisão sobre contratação de zelador, reforma de muros, aluguel de sala, troca de lâmpada do datashow, construção de quadra para os jovens, compra de bateria, pacote de telefonia móvel para a equipe pastoral ou a cor do púlpito novo. Em qualquer outro lugar, que não a igreja, os crentes são competentes para tudo isso e muito mais – mas, na igreja, se o “ungido” não der pitaco o assunto não se resolve. Enquanto isso, ensinar “todo o conselho de Deus” (três anos para Paulo em Éfeso! Atos 20) não é possível nem em 20 anos. Daí, o pastor se aposenta e a igreja precisa consultar o banco de dados da Ordem e importar um presbitero de Creta para suprir Laodicéia.
    Peter Drucker não é nada – Jetro foi o primeiro guru da alta gestão! Os pastores devem deixar aos santos a obra do ministério, contentando-se em serem os provedores de grama e água (a comida das ovelhas, a Palavra de Deus) em oração.
    A usurpação da palavra ministério para designar exclusivamente a atividade dos pastores deve ser acusada como apropriação indébita e o “sinédrio” deve decretar a reintegração de posse imediata, a todos os santos, desse termo, para designar seu serviço em favor do Reino no mundo (e, deve-se dizer, a bem da justiça, que os “esquentadores de banco” que ouvem a Palavra no domingo mas não fazem ministério no mundo, como sal e luz de segunda a sábado, devem ser “palavramente” exortados e repreendidos).
    É isso – um tanto contundente, talvez. Mas não se faz reforma sem protestar e não se protesta sussurrando “eu amo você” ao pé do ouvido, né? A situação das igrejas hoje está fazendo o reinado de Jeoiaquim parecer uma apresentação do oratório Messias pelo coro celestial. Não dá prá pegar leve, infelizmente!
    Então, muito relevante seu post e excelente oportunidade para reflexão.

    Alberto

  4. Caio 19 Março 2009 às 16:50 #

    Respondeu sim, obrigado.

  5. Franklin Ferreira 19 Março 2009 às 16:51 #

    Oi, Alberto,

    Obrigado por suas palavras, escritas com ‘’som e fúria’’. Me parece que falta, de fato, uma clara filosofia de ministério aos pastores. Muitos não sabem para o que foram chamados, e se gastam em outras questões, que não são centrais ao ministério da Palavra.

    Aliás, lendo seu comment, me lembrei da perceptiva descrição que Peter Berger, em O Dossel Sagrado, fez de alguns ministros evangélicos: eles eram “burocratas eclesiásticos” – e ele estava escrevendo justamente sobre a ênfase na capacitação tecnicista para a formação ministerial, em detrimento de estudos teológicos e formação pastoral.

    Tristes tempos em que vivemos; muito da culpa do péssimo testemunho de nossas igrejas no país recai sobre os pastores; afinal, uma igreja nunca está acima da pregação e testemunho bíblico que recebe desses homens.

    Abs
    Franklin

  6. Alberto Costa 19 Março 2009 às 16:52 #

    Franklin,
    Ezequiel 34 não é muito pregado, infelizmente. Não sei se é lido com freqüência. Mas dificilmente se pode profetizar numa situação calamitosa como a que vivia Judá entre o momento da deportação para a Babilônia e o momento da destruição de Jerusalém e do templo, como o fez Ezequiel, sem responsabilizar os líderes espirituais, os responsáveis por dar de comer ao povo a Palavra de Deus, que, ao contrário do que se esperava e exigia, tornavam-se obesos em seu sedentarismo, enquanto o povo, sem a Palavra, corrompia-se e era desarraigado.
    A morte ronda um povo que não recebe a Palavra de Deus. A morte ronda um povo que se prostitui em altares profanos ou que comparece ao templo com sacrifícios profanos. A morte ronda um povo que acredita em Papai Noel, digo, em paz, quando o inimigo está cercando a cidade por todos os lados (ou acredita no IBGE e seus 30 milhões de evangélicos, achando que está no olho de um furacão de avivamento, quando até entre os mais conservadores dos crentes não é a Palavra de Deus que define a cosmovisão, a educação dos filhos e a ordem nas reuniões da igreja, sem perceber que, no mínimo, um 25 milhões desses não passam de edomitas e samaritanos prontos a delatar judeus aos babilônios).
    Sim, de cada hora gasta pelos pastores em alimentar seu próprio senso de segurança ao invés de em inocular a Palavra na mente do povo, será pedido conta. De sua estratégia aprendida em livros sobre liderança escrito por funcionários do Ministério da Verdade da República Babilônica, ao invés de por ouvir o “sogrão Jetro”, lhes será pedido conta. De cada pregação comprometida com a cultura deste século, destinada a confortar ovelhas sendo mastigadas por lobos por dizer-lhes que é prudente aliar-se a lobos egípcios para enfrentar lobos caldeus, lhes será pedido conta. De cada discurso misturado (fifth/fifith – Escrituras e a última moda em tolerância com o pecado, seja o feminismo ou o machismo, seja o socialismo ou o capitalismo, seja o sexismo ou o homossexualismo, seja o humanismo ou o teísmo – e pouco importa se são abertos ou fechados, seja o cientificismo evolucionista ou o cientificismo criacionista – um nega que a assinatura seja de Deus, já que Ele não tem registro de nascimento no cartório; o outro prova que ela é de Deus, porque há um carimbo de reconhecimento de firma assinado por algum escrivãozinho concursado), lhes será pedido conta.
    Mas, de qualquer um que senta nos bancos dos “templos” ou nas poltronas em suas salas “diante do trono catódico ou de plasma ou de cristal líquido”, disposto a ouvir qualquer bobagem que lhe coce as orelhas ao melhor estilo “palinetes York”, sem dar-se ao trabalho de verificar as credenciais da mensagem e do mensageiro, há de ser pedido conta. De todos que se acham protegidos por sua vinculação eclesiástica, pela história do povo cujo nome ostenta, pelos “símbolos nacionais” (credo ou confissão de fé, batismo, ceia, programas político-partidários – “eu de Cristo, eu de Calvino, eu de Behhy Hinn…”, ou posição burocrática – diácono, líder do cultinho, membro do conselho, regente do coro, solista da banda, secretário-correspondente da Ordem – já perceberam como sempre tem gente achando que dizer-se “levita” é grande coisa, desde Israel até 2008?), será pedido conta.
    O fato de os muros estarem caídos só não é culpa de Deus. E ele vai pedir conta de todos os outros. Porque a Ele só importa o Reino de Seu Filho, por causa de quem tudo foi criado e veio a existir. Como recomenda o Salmo 2, melhor “comer poeira” agora (beijar os pés do Filho) do que enfrentá-lo depois – mas as socialites criadas no Egito fabricando tijolos com as próprias mãos, são chiques demais para suportar dieta de maná – querem só picanha na brasa, temperada com alho e cebola importados (de fato, contrabandeados do cativeiro, através do Mar Vermelho)…
    Há sinais, entretanto, de uma epidemia de diverticulite, por causa da dieta ruim, sem fibras. Os cozinheiros serão demitidos, mas quem achava que o restaurante era “a última moda em Paris”, se sobreviver vai passar um bocado de tempo

  7. Franklin Ferreira 19 Março 2009 às 16:53 #

    Oi, Alberto,

    Lendo um dos bons livros do Eugene Peterson, O pastor que Deus usa, ele cita Timothy L. Smith, Revivalism and Social Reform:

    “Parece-me que adotamos os modelos aplicados à produção para o crescimento e a administração das igrejas. Os líderes das denominações tendem a considerar promissores os pastores que se organizam de modo semelhante aos homens de negócios que querem invadir o mercado. Conseqüentemente, temos enfatizado demais a imagem e as relações públicas, mas acredito que a necessidade mais premente é recuperar a percepção da complexidade e da profundidade da verdade bíblica”.

    Aqui temos um círculo vicioso: as igrejas, em linhas gerais (e estou pensando pelo menos nas igrejas históricas), padecem hoje de grave superficialidade bíblica. Pastores medíocres, incapazes de expor o texto bíblico, seduzidos pela cultura de mercado e pelo neo/hiper-pentecostalismo. Igrejas apáticas, músicas sem nexo, graça barata, analfabetismo bíblico funcional, etc. Ainda assim, surgem “vocações”. Essas são enviadas para os seminários denominacionais, na pressuposição de que é responsabilidade desses centros a formação pastoral – aqui preciso destacar um detalhe: são raros os pastores que acompanham seus seminaristas. Muito raros. Indiferença é uma das marcas da relação entre pastores e seminaristas. Continuemos: Via de regra, a maior parte dos professores dessas casas foram encantados pela velha serpente, o liberalismo teológico; gente frustrada com a igreja tradicional; a maioria deles nunca pastoreou; nunca teve que falar em enterros, batizar, casar, pregar semanalmente; incapazes de construir, mas ávidos para destruir. Como bem escreveu Augustus, parasitas. Recebem alunos de… 18, 19 anos… meninos ainda. Sem discernimento algum. Vários com 1 ou 2 anos de conversão. Criados no fundamentalismo legalista e anti-intelectual das igrejas tradicionais. O resultado óbvio é uma carnificina espiritual. Vários alunos abandonam o curso. Outros persistem – mesmo apostatando da fé. Mesmo assumindo o gnosticismo como novo credo. Persistem porque não sabem fazer outra coisa na vida. É o único trabalho que tem. E assim mesmo vão assumir os púlpitos e ministérios em igrejas históricas. Em vez do evangelho da graça (que nunca receberam e no qual nunca foram alimentados), o que oferecerão às igrejas históricas é o não-evangelho, o heteron euangelion, a palavra da morte, a mensagem debaixo de maldição (Gl 1.6). Ai viram ou burocratas eclesiásticos ou neo-pentecostais. Até porque não terão coragem de escancarar sua “nova” fé – que não é nova, é só o velho gnosticismo vestido com roupas modernas. O ciclo se fecha: o resultado está ai – a igreja histórica completamente esfacelada, com um testemunho pífio diante da rápida paganização de nossa cultura.

    Humanamente falando, me parece que somente por meio de uma renovação dos púlpitos (talvez por meio de irmãos “leigos” que se insurjam com o tipo de pregação oferecida), o surgimento de novas escolas de formação de pregadores (note o uso intencional da palavra) e o surgimento de uma nova geração de pregadores comprometidos com a lei e a graça pode nos dar alguma esperança de dias melhores para a igreja histórica – com a recuperação da “percepção da complexidade e da profundidade da verdade bíblica”.

    Agora… Deus tem poder para – como fez em outros lugares, em outras épocas – mudar tudo isso ai num único momento. Supliquemos, então, pela vinda do Espírito!

    Veni, Creator Spiritus!

  8. Juan de Paula 19 Março 2009 às 16:54 #

    Franklin e Alberto,

    em tempos de estudo lembro de vários colegas no corredor do seminário ou no internato alegando que não eram pastoreados. Eram largados ali pela igreja de origem e ponto. Os que vinham de outros estados ou interior, iam para igrejas da capital para “tapar buraco” e também não eram formados e como escrito no comentário acima, se espelhavam em professores decepcionados com a igreja e tomados pelo liberalismo teológico. O resultado não poderia ser outro.

    Juan

  9. Alberto Costa 19 Março 2009 às 16:55 #

    Franklin, Juan, Caio e demais,
    Acabo de escrever a um jovem líder universitário, a quem eu havia corrigido por sua avaliação crítica daquele assunto de homeschooling (Júlio Severo, 04 set 08), que me confessou faltar-lhe uma “ótica cristã” na leitura do mundo à sua volta. Minha recomendação a ele foi: leia o Antigo Testamento.
    A tendência dispensacionalista para criar um fosso entre o AT e o NT (de fato, o dispensacionalismo pode não ser o único culpado), acabou por fazer com que haja gente que ache que Neemias foi salvo pela lei ou, até, que nem foi salvo. Mas, pior que isso, nossa eclesiologia, inclusive o conceito de ministério cristão e de liderança eclesiástica (que estamos discutindo), por desconsiderar a Lei de Moisés e a história do povo que Deus criou para revelar-se progressivamente nele até a revelação em Jesus, despreza esse ensino progressivo e toda a luz que pode vir dele para permitir que entendamos Jesus e Paulo e a epístola aos Hebreus, etc., resultando nessa barafunda doutrinária e prática que envolve os conceitos de ministério, liderança e, até, culto cristão.
    Precisamos de um “choque de AT”. Parafraseando Bonhoeffer, “quem começa com João 3:16 sem passar por Gn 3:15 e tudo o que vem entre os dois, corre o sério risco de não ter entendido nada” – o pastor e teólogo alemão, mais audaz do que eu, escreveu que “quem intenta entrar no NT sem passar pelo AT não é cristão” (ele podia dizer isso, porque estava disposto a morrer por aquilo em que cria – eu não fui fuzilado… ainda).
    Daí para os problemas recorrentemente citados a respeito de seminários, pastores que não formam pastores, liberalismo e cinismo é meio passo. Vocês já repararam que a primeira coisa que um liberal e um incrédulo (a mesma coisa, no fim, exceto pelo rótulo) rejeitam não são os Evangelhos ou Paulo, mas o AT? Por que será?

  10. Norma 19 Março 2009 às 16:56 #

    As cartas de Paulo são rejeitadas pelas seitas mesmo. É uma constante: gnósticos “cristãos”, seguidores de Swedenborg (existem!), um padre socialistão francês que virou muçulmano (de quem esqueci o nome), todos detestam Paulo e acham que ele perverteu o sentido dos Evangelhos. Mas quem ainda permanece com “cara de crente” e fica nas igrejas prefere torcer a cara para o AT. Perdi a conta de quantas vezes já ouvi de pastores renomados: “Mas isso é coisa de AT”, com uma careta de “Isso já passou”. Sequer lhes passa pela cabeça que o AT era toda a Bíblia que Jesus usava, prezava e citava.

    Pessoal, a discussão está muito boa, parabéns!
    Alberto, você deveria ter um blog. ;-)
    Abraços!

  11. Alberto Costa 19 Março 2009 às 16:57 #

    Norma,
    obrigado pelo incentivo. O blog já tem nome (”e-peregrino”), registro no Blogger e conta, de minha parte, com uma grande… boa intenção (que não é muito, não é?). Só não tive ainda a disciplina para escrever com regularidade e abri-lo ao respeitável público.
    Entretanto, esta semana estou lançando um blog profissional, para expandir o tema de uma palestra que fiz mês passado para empresários e profissionais aqui de Floripa (eu atuo como consultor de empresas). Acho que, no embalo, o blog voltado à reflexão bíblico-teológico-ministerial deve sair também. E, com o estímulo, isto pode tornar-se mais fácil. Me aguardem! (ai, esse oblíquo começando a frase doeu lá entre as juntas e medulas…).
    A propósito de AT, foi interessante ler, na entrevista do John Stott na Cristianismo Hoje, a afirmação “Embora a questão do cânon do Novo Testamento seja complicada, em geral somos capazes de afirmar que o que é canônico é apostólico.” Eu não tenho dificuldades para aceitar o cânon do NT, além das que todo mundo tem e o Stott reconhece. Mas é reconfortante saber que o cânon do AT é assunto muito mais tranqüilo e, se nos faltasse o Novo, sabendo de Jesus e tendo o AT, estaríamos na mesma situação que os apóstolos, exceto o testemunho ocular (que não é pouco, mas não é tudo). Esse pessoal com dificuldades com o AT tem problemas sérios… e não são problemas teológicos, são problemas intelectuais, antes de tudo – mente incapaz de discernimento. Numa escola do ensino fundamental, teriam de ser encaminhados às tais “classes para alunos com necessidades especiais”.
    Abraços.

  12. Valéria 19 Março 2009 às 16:58 #

    Alberto Costa, Deus abençoe sua vida grandemente.
    Diante da sabedoria litúrgica de vocês me sinto realmente muito pequena. Mas não posso deixar de dizer que Ezequiel 34 foi muito bem colocado. Hoje infelizmente, a maioria dos pastores está preocupada em ter e não em ser. Cresce o número de pessoas dentro das igrejas, mas o Espírito Santo de Deus está sendo sufocado com os desejos e anseios, interesses próprios dos “frequentadores” e isso afasta o homem de Deus ainda mais. Fico triste em ver que tantas almas ainda sofrem mesmo depois de anos dentro da igreja, sem a consciência de que a “igreja” somos nós. Não há mais busca do batismo com Espírito Santo, não há mais amor entre os irmãos, não há fidelidade. As igrejas hoje estão cheias de religiosos. Perguntam os pastores : “você gostaria de aceitar Jesus em sua vida”. Ora, Jesus não é cafezinho, não é chazinho, Jesus é sangue vertido que nos lava e nos purifica. Ele disse: Aquele que a mim me recebe, recebe aquele que me enviou. Jesus deve ser recebido em nós. A palavra CRISTÃO não significa que somos seguidores de Cristo, mas que Cristo vive em nós. E se Cristo vive em nós, tudo tem que ser diferente. Aleluia!
    Isáias 1.2 nos mostra o que tem acontecido nos dias atuais, não é nada diferente do que acontecia antes. Deus não visto como DEUS, mas como um “ser superior” que nos ajuda quando precisamos. Deus é DEUS e pronto e devemos ter a consciência de buscá-lo não porque Ele pode nos dar isso ou aquilo, mas porque Ele é Deus. Jesus Cristo disse: Buscai primeiro o reino de Deus…(Mateus 6.33) Ele não disse buscai “do” mas “o” reino de Deus. E o que se vê hoje é uma busca frenética, mas não por Deus e sim pelos próprios interesses, principalmente os “pastores” (queiram me perdoar), muitos vão às igrejas buscar apenas aquilo que Deus tem para dar. São muitas campanhas que prometem milagres, glória a Deus que eles acontecem, mas porque Deus é fiel, e faz o milagre acontecer, por amor de “Seu” nome (e ninguém vê isso, e muitos pastores ficam se achando, pensando que foi o realizador do milagre). Infelizmente a palavra não está sendo embutida nos corações, não está sendo plantada, não está sendo regada, não está sendo VIVIDA.
    Voltando lá em Isaías 1.2, em Ezequiel 34, vimos então que até mesmo muitos pastores, infelizmente, têm prevaricado contra o nosso Deus. Não há mais tempo de perder tempo . O tempo agora é de falar a verdade, estamos no tempo do avivamento. Devemos falar a palavra de Deus, aquela que Ele tem colocado no coração e na boca de muitos pastores e estes se negam a dizer, simplesmente pelo medo de perder “fiéis” (bons dizimistas) que talvez nem saibam qual o verdadeiro sentido de devolver o dízimo à casa do tesouro. Sentem medo de ofender o “irmão”, me perdoem, mas a palavra quando é colocada em nossa boca por Deus ela é bem “re-ce-bi-da” e NÃO “o-fen-de”. Pelo contrário, transforma. Não foi assim que aconteceu em Nínive?
    Não adianta uma boa escola de teologia, se a palavra de Deus não estiver VIVA dentro de nós. Será inútil gastar tanto tempo estudando, se a palavra não for VIVA dentro de nós. Sou apenas uma principiante, não sei nada ainda e morrerei sem ter aprendido e entendido tudo, mas Deus tem me mostrado muito, muito mais além do que um dia pensei seria capaz de ver.
    Noé, Abrãao, Moisés, Jacó, José, Davi, Salomão….Paulo antes chamado Saulo, que era perseguidor do povo de Deus foram grandes homens, instruídos POR DEUS. Aleluia! Eles fizeram simplesmente segundo a vontade de Deus.
    Deus abençoe a todos!

  13. Alberto Costa 19 Março 2009 às 16:58 #

    O link para a entrevista do Stott:
    http://www.cristianismohoje.com.br/artigo.php?artigoid=35011


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