Dia a dia tome a sua cruz e siga-me

Lucas 9.23

Clodoaldo Machado

Na época em que Jesus proferiu estas palavras, cruz era sinônimo de morte. Ela marcava o fim da vida de uma pessoa. Era o conhecido método de execução da pena de morte dos romanos. Quando alguém era condenado à morte, era na cruz que a pena era executada. Os romanos ordenavam que a pessoa tomasse a própria cruz e a carregasse até o local da execução.

Os discípulos que estavam ouvindo estas palavras entenderam claramente que Jesus falava sobre morte. Eles compreenderam que Ele estava dizendo que quem quisesse segui-lo deveria ter disposição de morrer. Quanto a isso certamente não houve dúvida.

O fator intrigante nas palavras de Jesus é que a pessoa que tomava sua cruz no método romano fazia isso somente uma vez. Ela tomava sua cruz, caminhava até o local da crucificação, ali ela era pregada e deixada exposta até a morte. Quando a pessoa demorava a morrer, soldados romanos lhe quebravam as pernas, afim de que morresse mais rápido.

Jesus, porém falou de tomar a cruz dia a dia. Ele não estava falando sobre morrer uma vez só, como acontecia na prática romana. Aqui ele está falando de morrer mais de uma vez.

Como pode ser isso? Como alguém pode morrer dia a dia? A morte não é de uma vez por todas?

A resposta é que no método romano a morte era física e Jesus está falando aqui da morte espiritual da natureza pecaminosa. Jesus está dizendo que segui-lo significa estar disposto a levar à morte a natureza pecaminosa todo dia.

No contexto Jesus fala sobre negar a si mesmo, fala sobre perder a vida por causa dele. Tomar a cruz dia a dia significa que nossa natureza pecaminosa tenta viver todo dia e nós devemos pregá-la todo dia numa cruz. Significa que quando estamos seguindo a Cristo, estamos morrendo para a velha natureza e vivendo a nova para Cristo.

Na prática significa que dia a dia temos que dizer não para nós mesmos. Nossos desejos pessoais que desagradam a Deus deverão ser pregados numa cruz. Nossos impulsos de ira, de vingança, de nervosismo deverão ser pregados numa cruz dia a dia. Os pedidos que nossa natureza nos faz deverão ser crucificados. Vontades muitas vezes que aparentemente não são maléficas, Deus pede que sejam pregadas na cruz. Aqueles momentos em que ficamos chateados porque as coisas não aconteceram como queríamos, devem ser pregados na cruz.

O fato é que ao contrário de abrir mão de nossos desejos, nós tentamos nos convencer de que eles não são maus e que eles não nos afastarão de Deus. Tentamos nos convencer de que Deus não se importa com eles.

Aqui vemos claramente a essência de seguir a Jesus. Por isso ele adverte seus discípulos. Não se pode seguir a Jesus e ao mesmo tempo ter satisfeito os desejos da natureza pecaminosa. Corremos o risco de seguir a Jesus e tentar manter viva nossa velha natureza. Por isso muitos erram, pois não entendem que a cada novo dia Jesus está nos convidando a viver para ele, e viver para ele significa pregar na cruz nossos desejos pessoais. Significa que serão apresentadas a nós oportunidades de tomar a cruz e morrer para o “eu”. O apóstolo Paulo entendeu isso muito bem, por isso ele escreveu aos gálatas: estou crucificado com Cristo (Gl 2.19). E aos romanos ele escreveu: “por amor de ti somos entregues à morte o dia todo” (Rm 8.36).

Jesus está então dizendo a seus discípulos: “Querem me seguir? Então estejam dispostos a abrir mão de seus desejos pessoais”. O caminho da vida significa a crucificação diária da natureza pecaminosa. Dia a dia tome a sua cruz e siga-me.

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20 Comentários para “Dia a dia tome a sua cruz e siga-me”

  1. Anônimo 29 Maio 2009 às 22:18 #

    Eis a essência do cristianismo, o que implica num processo contínuo de mortificação e de renúncia do próprio eu. Morremos para nós mesmos para que a vida de Deus, em Cristo Jesus, tenha fluxo contínuo em nós. O Ap. Paulo entendeu muito bem essa verdade, e por isso pode se expressar, dizendo: “Não vivo eu, mas Crito vive em mim…”. Será que podemos fazer coro com ele? Ou continuamos achando que viver uma vida chula de pecados é melhor? Será que entendemos que morrer é questão de vida? Ou continuamos achando que a morte que se vive em pecados é algum tipo de vida?! Melhor morrer para viver eternamente que viver para morrer uma morte eterna.

  2. Joel E. Bueno 30 Maio 2009 às 8:46 #

    Em análise sobre a contradição paulina em Romanos 7. 7 – 25, vemos que a natureza pecaminosa permanece viva enquanto vivemos na terra. Ela conduz a pessoa, seja cristão ou não, a uma desorganização mental, emocional, volitiva e física que a leva a fazer afirmações desconexas e injustas. Nao descarta até a acusação a Deus pelo bem que Ele tem nos dado. Busca fugir das responsabilidades e coloca em pontos opostos as intenções a ações como se isso fosse possível a uma pessoa em pleno juízo. A natureza pecaminosa deve ser colocada, pela capacitação dada pelo Espírito Santo em nós, em permanente estado de coma. Nesse estado ela passa de agente a paciente. Isso é feito quando adotamos a conduta de Esdras que preparou o seu coração para buscar, cumprir a Palavra de Deus e ensiná-la. Ed 7.10. Essa seqüência é fundamental. Quando a essência do ser (alma,espírito,coração homem interior) e o instrumento do ser (corpo) se colocam submissos a Deus e Sua Palavra, então, a natureza pecaminosa permanece inerte e de maneira consciente e voluntária liberamos em nós a ação da natureza divina concedida a quem morreu e ressuscitou em Cristo.
    Irmão Joel E. Bueno. jbuenosp@ig.com.br.

  3. Anônimo 30 Maio 2009 às 11:17 #

    ‘Significa que serão apresentadas a nós oportunidades de tomar a cruz e morrer para o “eu”.
    Brilhantes colocações. O interessante é que normalmente não consideramos essas ‘oportunidades’ para exercitar a fé e a santidade. Santidade não é uma bela teoria, mas a prática da fé. Se creio que a mensagem do evangelho é a verdade, tenho o dever de praticá-la. Precisamos clamar por cura da soberba e tomar o remédio da cruz diária.
    Morrer para o ‘eu’ é abrir mão da soberba. Somente quando morremos para nossos impulsos podemos experimentar uma profunda alegria de viver, é vislumbrar o gozo da vida eterna.
    30 de maio de 2009 11:17

  4. Danilo Neves 30 Maio 2009 às 11:37 #

    Providencialmente, escutei essa msg do pr. Clodoaldo recentemente, em um dvd, quando ele esteve na 4 Conferência Fiel (c tá tb tá no dvd, Franklin! ainda escutarei as 2 msgs suas). E na ocasião, falando sobre a vida espiritual e o namoro cristão, ele deu muita enfase nesse texto de Lc 9.23.

    Jesus conhece muito bem o nosso coração. Calvino chegou a dizer que ele é uma fábrica de ídolos! A msg de Cristo é: “pra você ser meu discípulo, meu seguidor, há um preço. e esse preço é a sua própria vida, uma renúncia diária de pecados do seu coração”.

    Como o pr. Clodoaldo disse, esse preço, nem sempre queremos pagar.

  5. Daniel 30 Maio 2009 às 17:30 #

    Gostei do áudio!

  6. Raquel Pontes 30 Maio 2009 às 22:14 #

    Gostei bastante. Eu diria, meio que completando o que o Danilo disse no comentário dele, que esse preço nós nunca queremos pagar. Graças a Deus que Ele, através do Seu Espírito, vem e nos capacita a essa renúncia diária do “eu”, nos conformando cada vez mais a Cristo.

  7. Pr.Paulo Nogueira 1 Junho 2009 às 8:20 #

    Caro Pastor Clodoaldo Machado.

    Fico grato a Deus por lhe conceder uma escrita tão simples, mais ao mesmo tempo tão clara, dos fundamentos do Evangelho do Reino de Deus.
    Ultimamente tenho abordado muito esta questão em nossa igreja, e peço seu consentimento para compartilhar seu texto(logicamente citando a fonte e o autor)em nosso blog para benefício de nossa comunidade.Crendo que sua maneira de expor essa questão, vai ajudar muito o entendimento das pessoas.

    No mais peço a todos deste blog, continuem a abordar os fundamentos, estamos a nível evangélico precisando muito desta posição ortodoxa.

    Pr.Paulo Nogueira
    Ministério Religare – http://minreligare.blogspot.com

  8. santos 1 Junho 2009 às 9:27 #

    O grande problema é que a morte deve ser diária…

    É fácil morrer um dia ou outro, agora morrer todo dia não é para qualquer um…

    Se não desenvolvermos uma disciplina espiritual, acho quase impossível obtermos êxito, pois o texto deixa transparecer que essa morte depende da nossa atitude ou disposição….

    Que o Senhor nos ajude com a sua maravilhosa graça, porque não é fácil essa vida (ou será morte???) cristã….

    Deus abençoe grandemente a todos do Blog e seus visitantes…

  9. amilton aparecido da silva 1 Junho 2009 às 10:32 #

    Pr. Paulo gostaria de parabenizá-lo por tão inspirada palavra a respeito do versículo abordado em sua predição. Tomar cada dia a sua cruz para nós hoje, parece difícil porém, a mais pesada e a mais cruenta JESUS levou por cada um de nós…e hoje apesar de nossa cruz, temos a certeza da vitória em CRISTO JESUS, Nosso Senhor e Salvador.

  10. Pr.Clodoaldo Machado 1 Junho 2009 às 13:48 #

    Pr.Paulo Nogueira,

    O irmão pode usar este texto sim. É um prazer poder contribuir de alguma forma com seu ministério.

    Pr.Clodoaldo Machado.

  11. Aramis C. DeBarros 1 Junho 2009 às 16:58 #

    Tenho pensado bastante nessa passagem bíblica de Lc 9.23, e que nos inspira a refletir sobre a essência do discipulado cristão. A negação do EGO como primeiro requisito para seguir a Jesus está claro no texto. Agora, tenho me detido no segundo ponto, o “tomar a sua própria cruz” diariamente. De fato, como citou o autor do blog, está implícita aqui a idéia da morte para o mundo, já que a cruz era o instrumento mais violento e cruel de pena capital da época. Mas, há que se considerar algo complementar a essa interpretação.
    Como geralmente se sabe, a cruz era um instrumento de pena capital bastante usado na antiguidade, mas que fora especialmente aprimorado pelos romanos. Através dela, os romanos visavam, basicamente, a execução do criminoso dentro de um tripé que envolvia o máximo de dor, com o máximo de vergonha e no máximo de tempo. Não havia qualquer interesse dos exatores, a princípio, em reduzir o tempo de exposição do crucificado, salvo casos excepcionais, como ocorreu com a circunstância da crucificação de Jesus. Sabe-se até mesmo de delegados que permaneciam ao lado do crucificado para tratar seus ferimentos, de modo a que eles pudessem sobreviver mais tempo naquela situação sumamente aflitiva.
    Mas, o que me chama a atenção nessas palavras do SENHOR sobre o discipulado é o fato de que Ele se refere aqui ao momento inicial da execução por crucificação e não ao momento final desse tormentoso processo. O final dele sabemos como é; mas, o começo também tem muito a nos ensinar. O condenado a ser crucificado tinha a difícil obrigação de carregar desnudo a trave horizontal da cruz (patibulum), através da cidade, diante da populaça; era o que os romanos descreviam como “patibulum ferat per urbem…”. Esse momento era especialmente cruel, mas sobretudo humilhante, pois o condenado era exposto ao público e geralmente sofria escárnios e agressões dos circunstantes (embora suscitasse também a misericórdia de alguns). Minha questão ao analisar essas palavras do SENHOR é se ele não está usando a figura do crucificado, em seu estágio inicial da pena, para traduzir o fato de que o discipulado implica, além da morte para o mundo, também em suportarmos o opróbrio e a vergonha inerentes à cruz, jamais nos envergonhando dela e testemunhando com ela no meio dos homens. Se não estivermos dispostos a sofrer essa vergonha diante do mundo, não estaremos aptos para seguir ao Mestre. Parece-me que, em alguns momentos da história da igreja, o afã de mostrarmos nossa relevância como cristãos diante do mundo perdido nos fez esquecer de que SEMPRE haverá a vergonha e o opróbrio no caminho em que seguimos ao nosso Mestre. Um abraço a todos.

  12. Pr. Clodoaldo Machado 1 Junho 2009 às 22:16 #

    Agradeço irmão Aramis por suas colocações. De fato suportar a vergonha é uma maneira de morrer. Nosso ego tenta sempre se defender de qualquer situação que lhe seja desagradável, e certamente não há prazer algum na vergonha. Jesus em outro lugar afirmou que seus discípulos não deveriam se envergonhar dEle. Suportar a vergonha implica em morrer diariamente para Cristo. Um abraço, Pr. Clodoaldo.

  13. Danilo Fernandes 3 Junho 2009 às 16:47 #

    Ja era seu leitor no real, agora sigo-o no virtual. Tendo uma oportunidade, me faç auma visita. Sou reformado também, como você adoro Agostinho, mas o Genizah é um blog de combate à teologia da prosperidade e ao sincretismo. Batemos e depois sopramos com humor. Sempre esperando, mesmo que por drops, abrir a cabeça das pessoas para a beleza do cristianismo bíblico.

    Graça e Paz

    Danilo

    http://genizah-virtual.blogspot.com

  14. Juan de Paula 3 Junho 2009 às 19:51 #

    “Quando Cristo chama um homem, ele o chama para vir e morrer” Dietrich Bonhoeffer, Discipulado.

  15. Jean Francesco A.L.G.Guarniery 6 Junho 2009 às 17:54 #

    Olá Franklin e Clodoaldo!
    parabéns, pela parceria. Já era fã do blog enquanto apenas o Franklin postava agora melhorou ainda mais!
    Assisti algumas de suas palestras no site da Fiel. Que Deus continue dando-te coragem para pregar Jesus e este crucificado em nosso contexto cristão. Muito edificante sua mensagem sobre Lc 9. Simples e profundo.
    abç
    Jean

  16. Anônimo 9 Junho 2009 às 10:42 #

    negar a nós mesmos é um desafio a cada dia,pois é nossa vontade x a vontade de DEUS, não há dúvida a vontade de DEUS é o Céu de Glória, que a Palavra de Cristo mude o nosso viver.Pois só a Verdade nos Libertarar e seguiremos p/o alvo Crito Jesus,SENHOR e SALVADOR.

  17. Pr. Clodoaldo Machado 11 Junho 2009 às 10:12 #

    Olá Jean,
    Muito obrigado por suas palavras de apoio. Ore para que Deus continue usando nosso ministério de forma profícua, cuidando para que não nos rendamos àquilo que não for de sua absoluta vontade.
    Abraço, Pr. Clodoaldo Machado.

  18. valdir 1 Julho 2009 às 12:00 #

    Claro irmão clodoaldo machado.

    Meu nome é Valdir sou pastor em uma igreja de surdos em Petrolina/PE. Ao ler esse artigo senti-me dasafiado a preparar uma pregação com este tema. Por ter um público alvo os surdos, deve se fazer algo exclusivamente visual para a compreensão da mensagem. Então veio a mim a idéia de pegar uma cruz velha que tinha na igreja e usar de ilustração. Nesta cruz tinha escrito a palavra MORTE, e usei vários papeis com pecados escritos. No decorrer da mensagem fui pregando,com martelo,os pecados na cruz, mostrando que eles,ao estarem pregados na cruz estão mortos e não deviam mais fazer parte de suas vidas,pois Deus já os “matou”. Pela graça de Deus muitos compreenderam a mensagem e refletiram a respeito da sua vida com Deus.

    Foi uma benção ter lido seu artigo,tanto para mim quanto para os irmãos de minha igreja.

    Deus o abençoe ricamente com sabedoria e discernimento

    Fique na Paz.

    Pr. Valdir

  19. Vinícius 10 Julho 2009 às 19:35 #

    Nossa esse texto realmente esclareceu muita coisa para min!
    Agradeço ao dono do blog por sua iniciativa de ajudar os irmãos da fé na caminhada!

    Obrigado, abraços.

  20. Anônimo 6 Outubro 2009 às 8:53 #

    Estou vivendo uma oportunidade linda de crucificar a carne, a vontade de tirar a limpo, de dizer que meu irmão tá entendendo tudo de acordo com seu pp ‘eu’ e não de acordo com a realidade, que ele me julga injustamente… etec…. Mas Jesus foi levado como Cordeiro Mudo… ahhhhh, isso é duro!


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