A Felicidade é uma Promessa de Deus?
Clodoaldo Machado
A felicidade tem sido o alvo da humanidade. Muitos afirmam que têm a felicidade como objetivo de suas vidas. Mesmo aqueles que não verbalizam isto acabam vivendo baseados neste princípio. De fato tudo é estabelecido com base nisto. É aceitável, para as pessoas, que alguém troque de emprego se está infeliz. Se alguém troca de curso na universidade afirmando que não estava se sentindo feliz, a razão é aceita pela maioria das pessoas como válida. Se alguém não está feliz com seu casamento, para muitos seria normal trocar de cônjuge, afinal ser feliz é o objetivo. A felicidade é tida como um direito de todo ser humano.
Quando pensamos em Deus, sabemos que Ele é bom, que é galardoador de boas dádivas, que tudo que é bom vem Dele, então também pensamos que Deus nos dará a felicidade, pois ela é muito boa. Quando vemos as pessoas infelizes falamos para elas que isso é ausência de Deus, e que se tivessem um relacionamento com Ele não seriam assim tão infelizes. Chegamos mesmo a prometer para as pessoas que se vierem para Jesus serão felizes. O que o homem deseja é ser feliz, e tudo o que for feito dentro do padrão aceito pela sociedade, visando atingir este alvo, será compreendido.
A questão, no entanto é: Deus prometeu fazer-nos felizes?
Vemos Deus como sendo tão bom que a pergunta parece impertinente. “É claro que Deus prometeu isso”, alguém dirá. “Essa é a melhor coisa que alguém pode ter. Maior que bens materiais, maior que dinheiro, que o sucesso, se Deus é bom fará isso por nós.”
Entretanto não há essa promessa na Bíblia. Deus não prometeu fazer-nos felizes. Deus prometeu fazer-nos santos. Toda sua obra visa libertar-nos do poder do pecado, tornar-nos parecidos com seu Filho Jesus Cristo, para que com isso possamos habitar no céu eternamente. O objetivo do homem é a felicidade, o de Deus é a santidade.
Deus quer que compreendamos esta verdade, Ele deseja fazer-nos santos. Isto não significa dizer que servir a Deus é sinônimo de infelicidade. O crente não é infeliz. A verdade é que a felicidade no plano de Deus é o resultado de uma vida santa. Deus não quer que vivamos ansiosos pela felicidade, que façamos tudo em busca dela. Isso é obra do homem sem Deus. Deus quer que estejamos contentes em toda e qualquer situação, quer que aprendamos a depender Dele, que desejemos ser santos como Ele é santo. São estas coisas que o crente deve desejar.
Sansão foi um exemplo de alguém que pensou em ser feliz. Quando foi a Timna, uma cidade ocupada pelos filisteus viu uma mulher pela qual se apaixonou. Sansão então pediu a seu pai que a tomasse por esposa para ele. Seus pais, porém disseram a ele que não tomasse por esposa uma mulher filha de incircuncisos. Em outras palavras seus pais estavam lhe dizendo que ele deveria se casar com uma mulher da mesma fé. Sansão respondeu a seus pais: “Tomai-me esta, porque só dela me agrado” (Jz 14.1,2). Sansão estava afirmando que só seria feliz casando-se com aquela mulher. Nos dias de hoje Sansão seria apoiado por muitos, inclusive crentes. Diriam que ele estava certo, pois se estava apaixonado e se só assim seria feliz, que então buscasse seu objetivo, mesmo contra a vontade de seus pais. Para todos os lados em que olhamos vemos esta “regra”: Se é para ser feliz então vale à pena. Sabemos o final da história deste casamento de Sansão. Mesmo na festa o casamento já estava acabado e o que se seguiu foi uma grande tragédia. Sansão mostra o prejuízo que temos quando pensamos na felicidade em primeiro lugar.
Quando o crente entende e tira a felicidade do primeiro lugar de sua vida então Deus começa a torná-lo feliz. Davi escreveu: “Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do seu coração” (Sl 37.4). Em outras palavras Davi estava dizendo: Seja Deus suficiente para você, esteja contente com Ele, deixe-O decidir o que é melhor para você, procure fazer sempre a vontade Dele em primeiro lugar, e como resultado Ele satisfará o que o seu coração deseja.
Ao contrário de Sansão que queria agradar-se a si mesmo para ser feliz, Davi diz que devemos deixar Deus nos agradar. Quando desejamos muito algo, ficamos tentando nos convencer que aquilo é a vontade de Deus para nós. “Se somente assim seremos felizes então isso tem que ser a vontade de Deus”, dizemos para nós mesmos. A verdade é que isso não acontece. Confundimos nosso desejo por felicidade com a vontade de Deus. Resumindo, queremos agradar a nós mesmos e para não ficarmos com culpa na consciência tentamos nos convencer de que Deus também deseja aquilo.
Ser santo é abrir mão dos desejos pessoais e buscar aquilo que Deus deseja. Não tentemos misturar nosso desejo por felicidade com o desejo de Deus por santidade. Neguemos a nós mesmos e assim estaremos no caminho da santificação. Portanto a felicidade para o crente não é seu objetivo, é a conseqüência do seu desejo de agradar a Deus. Enquanto este mundo corre desesperadamente atrás da felicidade, o crente sábio busca a santidade, pois ele sabe que Deus prometeu fazê-lo santo, e a felicidade então, será só uma conseqüência.
9 Comentários para “A Felicidade é uma Promessa de Deus?”
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Prezado Pastor Clodoaldo,
bom texto! Mas acho que eu iria por um caminho diferente. Eu acredito sim que devemos buscar a nossa felicidade e que Deus nos criou para sermos felizes.
O ponto seria: qual a fonta da nossa felicidade?
Jonathan Edwards, puritano, irá dizer que não há contradição entre a glória de Deus e a felicidade de suas criaturas. Deus é a fonte infinita da nossa felicidade e alegria. “Qual o objetivo principal do homem? Conhecer a Deus ao se deleitar (satisfazer) Nele para sempre” é a primeira pergunta do breve-catecismo de Westminster (versão levemente modificada por John Piper no livro “Em Busca de Deus”.
John Piper, quando esteve no Brasil em 1994, levantou que fomos criados para procurar a nossa alegria e devemos procurar nossa alegria.
Na Bíblia, o termo bem aventurado usado em salmos e depois no sermão do monte pelo Senhor Jesus é sinônimo de feliz dando a entender satisfeito.
O ponto de tensão é o que o indivíduo pós-moderno entende por felicidade. Para quem não conhece o Evangelho de Cristo , felicidade seria dar vazão ou satisfazer-se com os ídolos do coração. Seria dizer que quem não está feliz com o conjugê deve separar-se ou quem não está feliz com poucos recursos deve buscar te-lo mesmo com meios ilícitos.
A satisfação em Deus promove uma obediência pela fé que consiste na verdadeira felicidade em deleitar-se na supremacia de Deus sobre todas as coisas. Isso é uma graça Dele. Isso nos torna feliz.
Mesmo quando sofremos, Deus nos chama a uma vida de alegria e contentamento (1 Pe 4:13 e Fil 4:4) Nele. Eu diria que essa é a base da nossa felicidade. Sei que é paradoxal: ao mesmo tempo sofremos e ficamos tristes (consequência do pecado e da queda) mas Deus nos chama a alegria (graça, redenção em Cristo e santificação). Quanto mais nos santificamos, mais nos deleitamos em Deus e mais somos felizes.
Um abraço,
Pr. Juan de Paula
Caro Pastor Clodoaldo Machado
Pela sua reflexão percebemos como a essência da Palavra de Deus, não é alcançada pela maioria do “novo Israel”.
Creio que nos cabe, a os nossos colegas pastores, não abrirmos mão de priorizar o verdadeiro entendimento dos ensinos de Jesus, mesmo que isso, faça com que nossos bancos fiquem com espaços vazios.
Fiquei muito feliz pelo seu texto, porque nesta semana, estávamos debatendo em nossa igreja a questão de dar mais atenção ao que Deus deseja de nós, do que o que nós desejamos de Deus, e a santidade e o amor ao Senhor, ganharam destaque.
Fique com Deus e compartilhe mais de suas reflexães, elas têm sido muito útil ao Reino.
Ps: com sua anuência, estarei reproduzindo seu texto em nosso blog para que muitos outros possam ter acesso.
Pr.Paulo Nogueira
Pr.Paulo fique a vontade para reproduzir este texto. É meu desejo que ele sirva para que servos de Deus não sejam influenciados pelo conceito de felicidade que o mundo tem. Muito obrigado por suas palavras encorajadoras.
Abraço, Pr.Clodoaldo.
Pr.Juan,
Muito obrigado por suas reflexões irmão. Não excluo a felicidade da vida cristã, nem penso que ela seja incoerente com a glória de Deus. O que penso é que crentes estão sendo influenciados pelo conceito de felicidade que este mundo tem, e isto acaba por confundi-los fazendo com que tomem decisões e ajam sem perceber que a Palavra de Deus está sendo desobedecida. Tudo parece ser justo se a finalidade é ser feliz, isto é o que me preocupa. Não é sem motivos que na igreja contemporênea, de uma forma geral, tem havido tolerância com comportamentos que nossos irmãos do passado não toleravam. Entendo que este conceito enganoso de felicidade é que influencia esta tolerância. O problema é o caminho que se tem usado para buscar a felicidade, e lamentavelmente é um caminho que não leva para aquilo que Deus deseja.
Um abraço, Pr. Clodoaldo Machado.
Pr. Clodoaldo,
exato! O que nós devemos ensinar para o povo de Deus é que fomos criados para buscar a felicidade porém a fonte é o deleite em Deus.
Não há como encontrar felicidade e alegria na desobediência a Palavra: seria dar vazão aos ídolos que o nosso coração fabrica (parodiando Calvino).
Entendi seu ponto: realmente pessoas buscam a felicidade de forma contrária a Palavra de Deus, o que não glorifica a Deus e nem proporciona alegria para elas.
Um abraço,
Pr. Juan
Graça e Paz!
Reverendo tenho um blog, e gostaria de postar esse seu artigo.. Deus continue te abençõando superlativamente. è intessante que a felicidade proposta por muitos é um espelho da cultura moderna, uma busca egoista por nulidadades propostas pelos mercadores da ‘ideologia’ da properidade. Como Seminarista e pastor auxiliar de uma pequena comunidade no estado do Goias, meu desafio tem sido tornar os fiéis conscios da suficiência da graça. Um abraço Reformado, pentecostal, mesmo assim reformado!
Oi Fanuel,
Pode postar o artigo sim. Que ele sirva como instrumento nas mãos de nosso Deus para que seus leitores possam compreender o que Deus realmente deseja para nós.
Em Cristo, Pr. Clodoaldo.
A eterna busca da felicidade pelo homem
Geraldo Felício da Trindade – trindadefilosofia@yahoo.com.br
Quando se olha para o mundo atual, vê-se a tristeza e o desânimo estampados nos rostos das pessoas. Vê-se homens e mulheres que batalham arduamente para alcançar metas materiais e esquecem-se da meta essencial da vida: a felicidade. Lutam para conseguir sua satisfação financeira, gastam suas forças, suas energias e quando conseguem seu objetivo já não dispõem de vitalidade para saborear suas conquistas.
Alvoroçados, correm para ter o melhor carro, a melhor casa, o melhor celular… Deixam de conjugar verbos, como cooperar e solidarizar, para, ao contrário, conjugarem os verbos competir e individualizar. Frente à essa realidade, ninguém deve impressionar-se com o exorbitante número de famílias desagregadas, com o excesso do consumo de drogas e com a prostituição.
As pessoas desperdiçam suas vidas correndo desesperadamente atrás de miragens. Metaforicamente, em pleno deserto buscam a felicidade nos falsos oásis. Embora saibam que o seu poder econômico, político ou seu status são passageiros, a maioria se ilude construindo castelos de areia, na ânsia de acumular. Esquecem-se de que o vento pode varrer todo o deserto e destruir seu frágil castelo.
Contraditória capacidade do homem: pensar! Sabem que pouco valor tem a quantidade, mas insistem. Correm atrás do maior número de conquistas, como viagens e festas, mas perdem a oportunidade de escutar o que fala seus corações. Buscam no outro a segurança para si e, no exterior, o amor, a tranqüilidade e a paz. Parece-lhes o mais fácil, o mais cômodo, porém, esquecem-se de que só encontrarão tudo isso dentro de si mesmos.
Pode-se dizer que já ultrapassamos a era da modernidade e estamos ingressando no que se pode chamar de “era da comparação”. Compara-se o dinheiro, o status, o reconhecimento, a fama, a beleza… As pessoas aderem cada vez mais aos valores que a sociedade impõe, sem ao menos saber se tais valores podem realizá-las.
A felicidade, nos dias atuais, é colocada como meta e enquanto procura-se alcançá-la perdem-se os verdadeiros momentos felizes. Na verdade, a felicidade não é nada mais que um filme que reúne os diversos momentos da vida. Essa é a dinamicidade da existência humana: tanto alegria, quanto dor.
[...] uma só: a FELICIDADE. Tudo o que o Homem faz, consciente ou inconsciente, tende a uma só coisa: a FELICIDADE! Ser feliz, [...]