Dia de ação de graças: A “História da Plantação de Plymouth”, de William Bradford
(Escrita entre 1630 e 1648; publicada pela primeira vez nas “Atas” de 1856 da Sociedade Histórica de Massachusetts)
… Depois de passar longo tempo no mar, toparam com a terra chamada Cabo Cod; a qual, tendo sido encontrada e reconhecida com certeza, os encheu de contentamento. Depois de terem deliberado um pouco entre si e com o capitão do navio, viraram de bordo e resolveram rumar para o sul (sendo o vento e o tempo favoráveis) a fim de encontrar algum lugar à beira do rio Hudson para sua habitação. Mas depois de terem singrado nesse rumo durante metade do dia, viram-se no meio de perigosas e atroadoras ondas de rebentação, e estavam ali tão embaraçados que se supunham em grande perigo; e como o vento, por outro lado, deixasse de soprar sobre eles, resolveram rumar de novo para o Cabo e julgaram-se felizes por safar-se desses perigos antes que a noite os alcançasse, o que, querendo a providência de Deus, conseguiram. E no dia seguinte entraram no fundeadouro do Cabo, onde ficaram em segurança…
Tendo assim chegado a bom porto e desembarcado seguros em terra, caíram de joelhos e deram graças a Deus do céu, que os trouxera por sobre o vasto e furioso oceano, e os livrara de todos os perigos e misérias dele, para que pudessem novamente pôr os pés em terra firme e estável, seu elemento próprio.
(…)
Nesses princípios duros e difíceis, encontraram descontentamentos e murmurações entre alguns, e falas e atitudes sediciosas em outros; mas estes foram logo debelados e superados pela sabedoria, pela paciência, e pela direção justa e igual das coisas por parte do Governador [John Carver] e seus auxiliares, que se mantiveram fielmente juntos, de um modo geral. Mas o mais triste e lamentável foi que, no espaço de 2 ou 3 meses, metade da companhia morreu, especialmente em janeiro e fevereiro, quando o inverno estava no auge e havia falta de casas e outros confortos; estando os homens atacados de escorbuto e outras moléstias, que a longa viagem e sua incômoda situação lhes acarretaram; desse modo, como morriam, às vezes, 2 a 3 por dia, na supradita ocasião; de cento e tantas pessoas, mal sobraram cinqüenta. E destas, no tempo de maior aperto, havia apenas 6 ou 7 sadias, as quais, seja dito em seu louvor, não se furtaram a trabalhos, nem de dia nem de noite, mas com abundância de lidas e risco da própria saúde, foram buscar lenha para os doentes, fizeram fogueiras para eles, cozinharam-lhes a carne, fizeram-lhes as camas, lavaram suas roupas nauseabundas, vestiram-nos e despiram-nos; numa palavra, realizaram todos os trabalhos grosseiros e necessários que os que têm estômagos delicados e sensíveis não suportam sequer ouvir nomeados; e tudo isso de bom grado e boa cara, sem a menor relutância, mostrando neste ponto o amor verdadeiro que consagravam aos amigos e irmãos. (…) E, todavia, o Senhor sustentou de tal maneira essas pessoas que, no meio da calamidade geral, não se deixaram infeccionar por moléstias nem por quebradeiras. E o que eu disse deles, posso estender a muitos outros que morreram nessa aflição geral, e a outros que ainda vivem, pois enquanto tiveram saúde, ou ainda tinham alguma força, não faltaram aos que deles necessitavam. E não duvido de que sua recompensa esteja com o Senhor.
Mas não posso deixar de referir aqui outra passagem notável que não se há de esquecer. Como essa calamidade surgiu entre os passageiros que deviam ser deixados aqui para plantar e foram desembarcados à pressa na praia… (…) Ora, a doença começou a alastrar-se entre os tripulantes também, de modo que quase metade da companhia morreu antes que o navio partisse dali, como aconteceu a muitos oficiais e homens mais vigorosos, como o contramestre, o artilheiro, 3 intendentes, o cozinheiro e outros. (…) Mas entre os da sua companhia surgiu então outro tipo muito diferente de atitude na miséria que afligia os passageiros; porque os que tinham sido antes bons companheiros na bebida e nas reuniões alegres no tempo da saúde e do bem-estar, começaram a desertar uns dos outros nesta calamidade, dizendo não querer arriscar suas vidas por eles, pois se tornariam infectados se fossem ajudá-los em suas cabinas, mesmo porque, depois que eles tivessem morrido por causa disso, pouco ou nada fariam por eles e, portanto, se tivessem de morrer, que morressem. Mas os passageiros que ainda se achavam a bordo lhes deram as mostras que puderam de misericórdia, o que abrandou alguns corações, como o contramestre (e outros), moço orgulhoso, que freqüentemente insultava e escarnecia os passageiros; mas quando ficou fraco, os demais, compadecidos, ajudaram-no; e ele confessou que não merecia ser tratado assim, uma vez que os maltratara por palavras e atos. Vejo agora, disse ele, que mostrais realmente vosso amor de Cristãos uns aos outros, mas nós nos deixamos uns aos outros jazer e morrer como cães…
Durante todo esse tempo, os índios se esgueiravam sorrateiramente por ali e, às vezes, mostravam-se à distância mas, quando alguém se aproximava, punham-se a correr. E, de uma feita, roubaram os instrumentos dos homens, onde estes tinham estado trabalhando e de onde se tinham ausentado para jantar. Mas lá pelo dia 16 de março, surgiu ousadamente entre eles certo índio e falou-lhes num inglês estropiado, mas que eles compreenderam muito bem, embora se maravilhassem disso. Por fim, interrogando-o, acabaram compreendendo que ele não era daquelas partes, mas pertencia às partes orientais, visitadas por alguns navios ingleses que lá tinham ido para pescar, e que ele ficara conhecendo, podendo nomear vários pelo nome, e com os quais aprendera a língua que falava. Esse índio lhes foi muito útil, familiarizando-os co inúmeras coisas relativas ao estado do país nas partes orientais em que vivia, o que se revelou mais tarde proveitoso para eles; e também com o povo daqui, seus nomes, seu número e sua força; sua situação e distância daquele lugar, e quem era seu chefe. Chamava-se Samaset; falou-lhes também de outro índio chamado Squanto, nativo daquele lugar, que estivera na Inglaterra e falava inglês melhor do que ele. Dispensado, após algum tempo de entretenimento e troca de presentes, voltou pouco depois, em companhia de mais 5, que trouxeram todos os instrumentos roubados dias antes, e preparou o caminho para a chegada do seu grande Sachem, chamado Massasoyt; o qual, 4 ou 5 dias mais tarde, veio com o chefe dos seus amigos e outra comitiva, da qual fazia parte o supracitado Squanto. Com o qual, depois de amistoso entretenimento, ajustaram uma paz (que continua agora há 24 anos)…
(…)
Depois dessas coisas, ele voltou para a sua terra, chamada Sowans, a umas 40 milhas daquele lugar, mas Squanto continuou com eles, e serviu-lhes de intérprete, e foi um instrumento especial mandado por Deus para ajudá-los além das suas expectativas. Ensinou-os a semear o milho, onde pegar peixe e arranjar outros bens, e folhes também piloto para levá-los a lugares desconhecidos em proveito deles, e nunca os deixou até morrer…
Harold C. Syrett (org.), Documentos Históricos dos Estados Unidos (São Paulo: Cultrix, 1980), p. 14-15, 19-21.
3 Comentários para “Dia de ação de graças: A “História da Plantação de Plymouth”, de William Bradford”
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Que maravilha é olhar para a história e ver cristãos de fato amando uns aos outros, contrariando a realidade do não-cristão.
É este cristianismo que está em falta no meio “gospel” dos dias atuais!
Abs;
Marcelo Gomes
Tisquantum
That’s “Squanto’s” real name, in Algonquian. The shortening can be forgiven, of course. Algonquian rivals ancient Elamite for its opaqueness.
*Nquitpausuckowashawmen.* No, I’ve not lapsed into glossolalia. That’s how Squanto would have said, “There are a hundred of us.”
*Tashuckqunne cummauchenaumiz?* “How long have you been sick?”
And of course, as Colson reminds us, Squanto could have numbered his tribe in English — and in Spanish. Alas, there were not a hundred Patuxets left — his people — all had perished, to smallpox. He alone survived, like some servant of Job — as indeed he was, to the hardpressed pilgrims. As for how long Squanto was sick, sudden fever took him the year after he had settled with his new tribe of pilgrims.
Well, he must have been used to being snatched away. He wasn’t kidnapped just once, you understand. In 1605, one George Weymouth whisked him away to England — whether kidnapped or volunteered, history does not record. For nine years he labored, until returning to America in 1613 as translator for none other than John Smith. Set free as reward for his service, Squanto returned to his own tribe, only to be enslaved and taken to Spain – kidnapped in 1614 by Thomas Hunt, a lieutenant of Captain Smith. He escaped to London where he remained until 1619 (broken by one odd trip to Newfoundland), then he joined an expedition to America. There he found his family and tribe all wiped out.
Providence? To find an English-speaking Indian wandering the coast at just the right time to save the Pilgrims? Well, yes. But how many other Squantos have wandered the earth, who have never found their mission?
To have a purpose is something to be thankful about. Father, mother, friend — to bring light and love not only to those you care about but to the stranger — well, this is something in which we might make our own providence. The rest of it — being kidnapped and orphaned and such — we count as beyond our understanding, and trust in God to resolve.
http://townhall.com/columnists/column.aspx?UrlTitle=gods_instrument_the_story_of_squanto&ns=ChuckColson&dt=11/23/2006&page=full&comments=true 11/28/09
Franklin,abraço!
Que coisa impressionante! Como sofreram para conquistar o direito de adorar a Deus livremente! Enquanto muitos não usam a bênção da liberdade para servir ao Senhor com zelo e paixão.