Comentário de Calvino aos Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses

Prefácio à edição em português

Comentário de Calvino aos Gálatas, Efésios, Filipenses e ColossensesO leitor tem em mãos o comentário de João Calvino a quatro das epístolas canônicas escritas pelo apóstolo Paulo.1 Estes quatro comentários foram preparados durante o tempo em que o reformador francês trabalhou, em meio à grande luta e oposição, para organizar estruturalmente a igreja reformada da cidade de Genebra, na Suíça. Ele casou-se com Idelette de Bure em março em 1540, em Strasbourg, de onde, em 13 de setembro do mesmo ano, retornou à Genebra, iniciando os vinte e cinco anos finais de seu ministério, e que marcariam seu nome indelevelmente na história daquela cidade suíça e da cristandade. Ainda naquele ano, seu amigo Philipp Melanchthon (1497-1560), para tentar sanar a divisão entre luteranos e reformados, preparou a Confessio Augustana Variata, que foi prontamente subscrita por João Calvino. Esta Variata incluía uma importante revisão no ensino da Santa Ceia e acerca da presença de Cristo nos elementos da eucaristia, onde se lê: “Da Ceia do Senhor, se ensina que com o pão e o vinho são verdadeiramente testemunhados o corpo e o sangue de Cristo para os que se alimentam da Ceia do Senhor”.2

No ano seguinte, em novembro de 1541, os conselhos da cidade adotaram as Ordenações Eclesiásticas (Ordonnances Ecclesiastiques) propostas por Calvino, e que estruturavam o governo eclesial por meio de pastores, mestres, presbíteros e diáconos. Também nesta época o consistório foi estabelecido, para zelar pela disciplina na igreja, manter a unidade na fé e a pureza doutrinal, além de não permitir a interferência do poder civil na igreja – intenção esta que originaria vários e amargos conflitos com os conselhos da cidade. Também dessa época são a Carta ao Cardeal Sadoleto, de 1540, a edição francesa das Institutas da Religião Cristã (Institution de la Religion Chrestienne) de 1541, traduzida da edição latina ampliada de 1539, o Breve Tratado da Santa Ceia (Petit Traité de La Sainte Cène), o Traité des Reliques em 1543, e a primeira edição da Bíblia de Genebra de 1546, contendo prefácio preparado pelo reformador francês. Ao final deste período a primeira seção do Concílio de Trento foi convocada, recrudesceram os conflitos dos calvinistas franceses com a coroa francesa e, em março de 1549, a esposa de Calvino faleceu, depois de uma longa e dolorosa luta com várias doenças. Durante este tempo tão conturbado e inseguro, quase insustentável, Calvino, “um estrangeiro destituído do direito de voto” como o descreveu Alister McGrath, preparou estes quatro comentários, tendo-os começado no fim de 1546 e terminado no começo de 1548, quando foram publicados em latim e em francês.3 “Ele sempre tratou estes quatro [livros] como um conjunto, e eles nunca foram publicados separadamente”.4

Ao mesmo tempo em que João Calvino batalhava pela reforma estrutural da igreja reformada em Genebra, com suas implicações sociais e políticas, ele tinha diante de si estas quatro epístolas. Ajudará ter uma idéia geral dos temas destas quatro epístolas, tendo em mente as lutas travadas no período que começou em 1541 e que se encerrou em 1555, quando finalmente toda a oposição política a Calvino foi derrotada em Genebra. Nesta época crítica de seu ministério, foram os temas destas epístolas que forneceram a direção para as reformas eclesiais e políticas que ocorreram naquela cidade da Suíça.

(…)

Estes quatro comentários foram dedicados a Christoph von Württemberg (1515-1568), filho de Ulrich von Württemberg e Sabina von Bayern-München – que pouco depois de seu nascimento fugiu para a corte de seus pais em Munich. Christoph permaneceu em Stuttgart com seu pai e sua irmã mais velha, mas em 1519 o estado (Land) de Württemberg caiu sob o domínio austríaco, e sua família foi banida dali. Ele cresceu na corte de Maximilian I, em Innsbruck, onde ganhou experiência política sob a tutela da casa de Habsburg, uma das mais importantes casas reais européias. Carlos V, que sucedeu Maximilian I, levou-o em suas viagens pela Europa. No inverno de 1530 ele esteve na coroação de Carlos V em Köln. Em 1531 ele viajou para a Holanda, em 1532 ele lutou com Carlos V contra os turcos em Viena, na Áustria, seguindo depois para a Itália e para a Espanha, e em meados de 1534 passou algum tempo na França.

Em 1534 Württemberg foi reconquistado aos austríacos, e a reforma evangélica foi introduzida naquele estado. No final da década de 1530 Christoph se converteu à fé evangélica. Em 1542, por meio do Tratado de Reichenweier, Christoph foi instalado como o governador da região de Montbéliard, no Alto Reno (Haut-Rhin), que havia se tornado um enclave evangélico, por influência do grande amigo de Calvino, Gillaume Farel (1489-1565), e que na época estava sob o controle de Württemberg. Em 1544 ele se casou com Anna Maria de Brandenburg-Ansbach (1526-1589), filha de Georg, Margrave de Brandenburg-Ansbach, e teve doze filhos deste casamento. O Margrave era luterano, e o casamento serviu para solidificar ainda mais sua adesão à causa evangélica. Este comentário que o leitor tem em mãos foi dedicado a Christoph nesta época, em fevereiro de 1548.

Em 1550 sucedeu seu pai Ulrich como duque de Württemberg e conde de Montbéliard. Seu conselheiro teológico mais importante foi o reformador luterano Johannes Brenz (1499-1570), amigo fiel de Lutero, reitor da catedral de Stuttgart e responsável por todas as igrejas de Württemberg. Tão logo assumiu o trono, Christoph pediu a Brenz para preparar a Confissão de Württemberg (Confessio Virtembergica), para apresentá-la, juntamente com Jakob Beurlin (1520-1561), na segunda seção do Concílio de Trento, em março de 1552. Embora este concílio não tenha nem mesmo permitido a leitura desta confissão, ela foi adotada pela igreja evangélica de Württemberg (Evangelische Landeskirch in Württemberg) em 1559, no Sínodo de Stuttgart. Christoph, com a ajuda de Brenz, reorganizou toda a administração eclesiástica e estatal em Württemberg. Estas reformas foram codificadas numa “Grande Regra Eclesial” (Großen Kirchenordnung) em 1559, preparadas por Brenz com a ajuda de Christoph, e que oferecia as bases jurídicas para as mudanças objetivadas na igreja e no estado, a partir da ligação indissociável entre o fundamento teológico e atividade prática da igreja e da sociedade.5 O que se tornou a posição oficial sob o Duque de Württemberg é que o governo secular deve trazer paz e ordem para toda a sociedade por causa da glória de Deus. Neste sentido, de forma menos ambígua que Lutero, o que Brenz e seu Duque defenderam foi o conceito do estado cristão, onde este também deve zelar pela pureza doutrinária da comunidade cristã.6

Christoph trabalhou arduamente para que a fé evangélica exercesse profunda influência em Württemberg, falecendo em 28 de dezembro de 1568, em Stuttgart. Foi a este homem que Calvino dedicou este comentário às quatro epístolas de Paulo. E ao dedicar seu comentário a um Duque que representava uma igreja luterana territorial na Alemanha, notamos outra faceta de Calvino. Ele escreveu ao arcebispo da Igreja da Inglaterra, Thomas Cranmer (1489-1556), em abril de 1552: “Assim é que, dilacerados os membros da igreja, o corpo sangra. Isso me aflige de tal maneira que, se eu fosse de algum préstimo, cruzaria voluntariamente até mesmo dez mares, se necessário, por causa disso”.7 O que se vê no fato de dedicar este comentário ao Duque de Württemberg é a grande preocupação do reformador francês de estabelecer uma verdadeira unidade doutrinal e espiritual, atuando para sanar as divisões que afligiam a cristandade, trabalhando construtivamente para unir naqueles pontos verdadeiramente essenciais aqueles que professam a mesma fé, anglicanos, luteranos e reformados, no verdadeiro sentido ecumênico.

Aqui temos o melhor de Calvino: o impulso para a reforma e organização visível da igreja é dirigido, incitado e corrigido pelas Escrituras Sagradas. Mas tal reforma não é um esforço isolado ou cismático, em que uma expressão local ou regional da grande igreja se percebe como a única correta. Muito ao contrário: o que se vê em Calvino, e especialmente ao situarmos este comentário em seu contexto histórico e intelectual, é que a reforma da igreja de Genebra foi caracterizada por diálogo com igrejas cristãs de outras regiões, a partir daqueles pontos que são essenciais à fé evangélica. Ainda que convicto da verdade de sua causa, também no tocante à eclesiologia, o reformador francês estava pronto para estender a destra da comunhão para outros evangélicos, como os episcopais e os luteranos. Como ele escreveu a Melanchthon, em junho de 1545: “Não cesso, porém, de render maiores graças a Deus, que nos concedeu tal concordância de opinião quanto a toda aquela questão acerca da qual fomos ambos examinados. Conquanto haja leve diferença sobre alguns particulares, concordamos muito bem acerca da questão geral em si mesma”.8

Neste comentário somos apresentados ao brilhante exegeta para o qual “a instrução teológica significava exposição da Escritura Sagrada”,9 interpretando o texto bíblico com fidelidade e modéstia, aplicando-o à vida dos cristãos, obedecendo-o ao almejar a reforma da igreja visível, mas sem perder de vista que a expressão local ou regional de uma igreja que luta para ser bíblica é parte da grande igreja, espalhada por toda a terra, e que a luta por unidade é incitada pelo grande evento que ocorrerá no grande dia da vinda de Cristo, quando esta numerosa igreja será ajuntada dos quatro cantos da terra, para celebrar o Deus trino por toda a eternidade, nos novos céus e terra – “Eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação. Todos os anjos estavam de pé rodeando o trono, os anciãos e os quatro seres viventes, e ante o trono se prostraram sobre o seu rosto, e adoraram a Deus, dizendo: Amém! O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graças, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 7.9-12)

Ut in omnibus glorificetur Deus!

Pr. Franklin Ferreira
Membro da equipe pastoral da Igreja Batista Nações Unidas – São Paulo-SP
Editor das Obras de João Calvino

6 Comentários para “Comentário de Calvino aos Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by roberto janchevis, João Calvino and Editora Fiel, Hub Reformado Brasil. Hub Reformado Brasil said: BLOG FIEL: Comentário de Calvino aos Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses http://bit.ly/biCfq3 [...]

  2. Reginaldo de Jesus Santos 28 Maio 2010 às 7:55 #

    Simplismente, excelente, sempre que me deparo com este tipio de texto, clara evidência biblica.
    Fico a me perguntar, ho Deus até quando iremos conviver com o analfabetismo biblico de certos pregadores e palestrantes da atualidade.

  3. Wilson Porte Jr. 28 Maio 2010 às 8:11 #

    “Que em tudo seja glorificado Deus!”

    Obrigado FIEL por trazer esta excelente ferramenta àqueles que desejam estudar e expôr as Escrituras com fidelidade e profundidade.

    Obrigado por fazer Calvino falar um pouquinho mais em português.

    Deus continue os abençoando.

    Wilson

  4. Pr. Edson Sobreira Alves 29 Maio 2010 às 9:17 #

    Franklin! Esse artigo é excelente, podemos observar que a luta de Calvino é também a nossa luta, buscamos preservar a verdade das Escrituras Sagradas, buscamos a unidade de uma fé verdadeira que tem sido diluída e fragmentada ao longo do tempo, como um ciclo que se desmanchou na reforma um novo ciclo está se formando, onde pensamentos errados, interpretações da palavra de Deus tem levado multidões ao engano e ao seu próprio prazer. Assim como Calvino, devemos levantar a bandeira da Verdade, da Palavra das Escrituras como base fundamental da nossa fé e esperança das promessas do nosso Senhor Jesus Cristo que virá reunir Sua igreja para Sua honra e Sua glória.
    Um abraço
    Pastor Edson Sobreira Alves
    Igreja batista regular maranata – Crato – Ce
    http://edsonsobreira.blogspot.com

  5. Salomão 31 Maio 2010 às 12:47 #

    Prezado Pr. Franklin,

    Parabéns por mais essa iniciativa.
    Que o Senhor Deus continue derramando Suas bençãos de graça sobre esse trabalho.
    Gostaria de saber se esse livro já está a venda nas livrarias.

  6. muito bom 10 Julho 2010 às 23:07 #

    é muito bom ter-mos comentários fies como estes
    que Deus os abençoe sepre em fidelidade a sua palávra , um grande abraço
    gonçalves


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