Cristianismo Sem Cristo

Tive o privilégio de ouvir as palestras de um dos escritores e preletores que mais aprecio, Michael Horton, em sua terceira vez falando no Brasil, desta vez no Congresso Internacional de Religião, Teologia e Igreja, realizado na Universidade Mackenzie, de 1 a 3 de março deste ano. Naquele evento também foi lançado mais um livro de sua autoria, Cristianismo sem Cristo.

Por conta da importância deste volume, julgo oportuna a publicação, em duas partes, de um ensaio preparado por José Mário da Silva, baseado na obra recém-lançada de Horton. Ele é presbítero da Igreja Presbiteriana de Campina Grande, na Paraíba, Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Paraíba e professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Campina Grande, no mesmo estado. Também é autor de livros na área teológica e de crítica literária.

Cristianismo Sem Cristo

José Mário da Silva

Cristianismo sem Cristo: o evangelho alternativo da igreja atual, eis o mais recente livro de autoria do teólogo reformado norte-americano Michael Horton, e dado a conhecer à comunidade evangélica brasileira, notadamente a que professa a fé reformada. O referido livro foi publicado pela editora Cultura Cristã e, a meu ver, deve ser lido por todo crente desejoso de ter uma visão sóbria acerca de qual é, de fato, a situação vivida, atualmente, pela igreja evangélica mundial.

Com o brilhantismo argumentativo que lhe norteia os escritos, e, sobretudo, com inquebrável fidelidade às Escrituras Sagradas, Michael Horton realiza um contundente diagnóstico acerca da situação vivenciada, hoje, por expressivos segmentos do evangelicalismo moderno, os quais de há muito se têm afastado do conteúdo simples e poderoso do evangelho da graça de Deus e das insondáveis riquezas de Cristo, centrado, fundamentalmente, na morte de Cristo na cruz e na sua posterior e gloriosa ressurreição e, em direção diametralmente oposta, tem abraçado teologias espúrias, inteiramente distanciadas da Palavra de Deus e alicerçadas no insustentável edifício das “novas revelações” trazidas por certos líderes que dizem ser portadores de unções especiais da parte de Deus.

Não se tornou moda, hoje em dia, pessoas se autoproclamarem apóstolos, apóstolas, paipóstolos, mãepóstolas e, corolário dessa megalômana postura, exigirem autoridade espiritual semelhante à que era manifestada pelos verdadeiros apóstolos bíblicos?

A despeito de a abordagem avaliativa empreendida por Michael Horton ter como escopo e referência primeira a realidade espiritual da igreja dita cristã da América do Norte, não temos dúvida de que o duro libelo denunciatório construído pelo aludido teólogo tem tudo a ver com o que se passa nas entranhas da igreja evangélica brasileira, indisfarçavelmente contaminada por toda sorte de ensinamentos estranhos ao cristianismo histórico e contrários ao que é preceituado pela Palavra de Deus.

Já se disse que as reflexões teológicas mais impactantes nascem na Europa, são profundamente deturpadas nos Estados Unidos e, depois, exportadas para o continente latino-americano, em cuja geografia, via de regra, são acolhidas passivamente, com celebratório e acrítico entusiasmo por parte de comunidades inteiras, havendo pouca gente disposta a pensar biblicamente e a confrontar tais novidades com o que é exarado na única regra de fé e de prática da igreja do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a Palavra de Deus, que é inerrante, inspirada, infalível e suficiente Revelação de Deus para nós. Que o digam as falsas teologias da prosperidade, da confissão positiva, do teísmo aberto, dentre outras, as quais, num átimo de tempo, valendo-se do desconhecimento bíblico de muitos crentes e, ato contínuo, da quase completa ausência de discernimento espiritual de lideranças ingênuas, mal intencionadas e despreparadas do ponto de vista teológico, invadiram igrejas, espezinharam a ortodoxia cristã, dividiram comunidades e, por fim, espalharam o veneno mortífero da falsa doutrina, que mata a alma e afasta o crente do evangelho simples de Jesus Cristo, que é o poder de Deus para salvação de todo o que crê, conforme assevera o apóstolo Paulo em sua Epístola aos Romanos.

Cristianismo sem Cristo, na irrefutável exposição de Michael Horton, diz respeito à entronização triunfante, em muitas igrejas, de um evangelho sem Cristo, sem o Cristo das Escrituras Sagradas, que veio ao mundo não para viabilizar o normalmente egoístico projeto de felicidade das pessoas, mas sim para resgatar do poder do pecado todas as almas que, antes da fundação do mundo, lhe foram soberanamente entregues pelo Pai e conformá-las à sua própria imagem. Um evangelho sem cruz, comprometido antes com a teologia da glória, do conforto e da desmedida satisfação de todos os prazeres terrenos. Um evangelho destituído de sangue, sem cujo derramamento não pode haver remissão de pecados. Um evangelho sem arrependimento, dado que nesses arraiais o homem de há muito deixou de ser encarado como um pecador perdido e destinado à ira de Deus por causa da hediondez das suas iniqüidades. Um evangelho sem justificação pela fé somente, que se estriba na falácia de que o ser humano é essencialmente bom, carecendo apenas de suaves retoques éticos e leves aperfeiçoamentos morais. Um evangelho psicológico, voltado para temáticas puramente existenciais, ancoradas no aqui e no agora das existências terrenas. Um evangelho sem regeneração, que se recusa a aceitar o veredicto divino de que o homem está morto em delitos e em pecados, completamente alienado de Deus e, conforme o Senhor Jesus Cristo asseverou, absolutamente incapacitado para contemplar e entrar no reino dos céus com os seus esforços. Um evangelho sem santificação, que facilmente descamba para o antinomianismo dos assumidamente libertinos. Um evangelho sem a bíblica constatação da depravação radical do homem. Um evangelho sem a bem-aventurança eterna para os salvos e sem a condenação eterna para os que, renitentemente amantes de si mesmos, preferiram manter-se rebeldes ao senhorio de Cristo.

O Cristianismo sem Cristo rejeita a suficiência das Escrituras Sagradas, ignora o caráter objetivo da Revelação que Deus fez de Si mesmo e despreza, solenemente, o sólido conteúdo doutrinário presente na Palavra de Deus. O Cristianismo sem Cristo aposta todas as suas fichas no culto exacerbado da experiência e na aceitação descriteriosa de tudo quanto é ditado pela onipotente subjetividade dos que o praticam. O Cristianismo sem Cristo não tem escrúpulos em sentir-se insatisfeito com a Revelação de Deus manifestada nas Escrituras Sagradas, daí a razão de ele cultivar, com ares de espiritualidade superior, “as novas revelações” que diz receber diretamente do céu, num flagrante e abusivo atentado contra o Sola Scriptura, bandeira inegociável e princípio formal da Reforma Protestante.

O Cristianismo sem Cristo não proclama, irreservada e incondicionalmente, todo o conselho de Deus, como fiel despenseiro dos tesouros do Senhor, antes, estribado em frágeis e relativistas hermenêuticas pós-modernas, troca a pregação expositiva das Escrituras Sagradas pelo amigável compartilhamento das pseudo-verdades bem palatáveis e compatíveis com o depravado coração humano, tais como: Jesus Cristo, quando muito, é apenas Salvador, jamais Senhor absoluto das nossas vidas. Em versões mais escancaradamente liberais, Jesus Cristo não passa de um excelente exemplo moral para ser seguido. O homem é um ser essencialmente bom, só precisa descobrir caminhos para aperfeiçoar as suas enormes potencialidades. A igreja existe para satisfazer os meus caprichos e criar condições amplamente favoráveis para que eu me sinta bem e dê livre curso aos meus egoísticos projetos de felicidade.

Humanista, moralista, deísta, terapêutico, suavemente sedutor, individualista, o Cristianismo sem Cristo é o roteiro mais seguro para conduzir o homem ao inferno. Diante de um quadro tão terrível de corrupção doutrinária, Michael Horton, na parte final do seu livro, faz um chamamento de resistência à igreja de Cristo, no sentido de que ela, contra todos os desencaminhamentos já presentes na cristandade, mantenha-se fiel à Palavra do Senhor. Ao tesouro que Ele nos confiou a fim de que o guardássemos com zelo, pureza e amor. Tesouro que tem em Jesus Cristo, sua vida santa, sua obra na cruz e sua ressurreição gloriosa o seu sublime, inegociável e eterno valor.

Que Deus nos dê a graça de continuarmos unidos Àquele que “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Romanos 4.25). E nos livre, também, de cairmos nas mazelas do gnóstico e anatemizado cristianismo sem Cristo do nosso tempo. Ou Cristo ou nada. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.

2 Comentários para “Cristianismo Sem Cristo”

  1. Pr. Edson Sobreira Alves 10 Maio 2010 às 10:37 #

    Pr. Franklin e José Mário, muito oportuno este artigo.
    Os pontos apresentados por José Mário da Silva sobre o livro “O cristianismo sem Cristo” cujo autor é Michael Horton. Nos mostra a luta apologética contra idéias que desfiguram, sutilmente para uns e claramente para outros, a obra profunda do nosso Senhor Jesus Cristo em Sua igreja. Pessoas que ao longo de sua caminhada cristã se deixaram levar pelo egoísmo de sua “sabedoria” e também, se deixaram enveredar nas influências de Satanás. (Lucas 22:3). Agora, estes encontraram um ambiente favorável para destilar seu veneno no meio do povo. Quando o autor fala que estes falsos ensinos foram acolhidos passivamente por comunidades inteiras. Devemos analisar se estas comunidades evangélicas cristãs já foram formadas erroneamente por líderes com convicções deturpadas para seu bel prazer ou se estas comunidades já faziam parte da igreja do nosso Senhor Jesus Cristo e estão sendo levadas ao engano. Então, ele fala que a comunidade não está preparada par discernir a Verdade do simples Evangelho de Cristo, dos ensinos enganosos. A que se deve isto? Ele responde que é o desconhecimento bíblico dos cristãos evangélicos e a falta de discernimento espiritual de lideranças ingênuas. Então, diante disto, o que devemos fazer para que isso não aconteça intensivamente? Isto é devido a falta discipulado dos novos cristãos no Evangelho verdadeiro e falta também do preparo correto dos líderes para discernir o certo do errado. Estava conversando com uma irmã de minha igreja, e ela disse que seu pai faz parte de uma liderança de uma igreja evangélica a quatro anos, ele não tem nenhuma formação teológica ou mesmo é autodidata, em casa é uma pessoa na igreja é outra. Ele prega, exorta e em sua igreja durante estes quatro anos nunca houve um dia de escola dominical…
    Nossa luta parece maior do que a de Paulo. Também Judas, o irmão do Senhor, em sua carta, nos chama a atenção para enfrentar estes novos “apóstolos”. Eles são certos indivíduos ímpios que transformaram em libertinagem a graça de nosso Deus, negando Cristo como soberano (Jd.4). São pastores que a si mesmo se apascentam (12). Judas ainda cita as palavras de Jesus Cristo: “No último tempo, haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias paixões (18).
    Friso aqui o que o autor diz: “É necessário manter-se fiel à Palavra do Senhor com zelo, pureza e amor.

    Pr. Edson Sobreira Alves
    Igreja batista regular maranata – Crato- Ce

  2. Josiel Dias 16 Junho 2010 às 14:26 #

    Olá meus irmãos Graça e Paz.

    Estou muito feliz em conhecer mais um espaço que propaga a palavra
    de Deus.
    Estou seguindo este maravilhoso blog, se desejares em conhecer o nosso blog, será um prazer
    tê-lo como visitante e se desejares nos seguir, ficaremos felizes.
    Mensagem Edificante para Alma
    http://josiel-dias.blogspot.com/

    Aprendendo uns com os outros crescemos em graça
    e conhecimento.

    Josiel Dias
    Cons Missionário
    Congregacional
    Rio de Janeiro


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