Evangélicos Repudiam o Silêncio Diante da Violência do Rio: 2005

A carta abaixo foi escrita quando pastoreava uma pequena igreja batista no Rio de Janeiro. Ela foi assinada por cerca de cem evangélicos daquela cidade e enviada à governadora, ao prefeito, a todos os senadores, deputados federais, estaduais e vereadores daquele estado, assim como aos principais meios de comunicação da cidade. De lá para cá houve um escalonamento da violência naquele estado. No ano seguinte, em 28 de dezembro de 2006, em meio à nova onda de violência, um ônibus interestadual da Viação Itapemirim, que seguia de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, para a cidade de São Paulo, foi incendiado por uma quadrilha em Cordovil resultando em nove mortes. No total, vinte pessoas morreram e vinte e duas ficaram feridas, numa série de ações criminosas contra ônibus, delegacias e postos policiais, da Zona Sul à Baixada Fluminense. Entre 2007 e 2010, de acordo com a ONG Rio de Paz, a violência causou a morte de vinte e cinco mil pessoas naquele estado. A governadora do Rio de Janeiro era Rosinha Garotinho, que em 27 de maio de 2010 teve o seu mandato cassado pelo TRE-RJ por abuso de poder financeiro. O prefeito na época era César Maia, que atualmente é candidato ao senado por aquele estado.

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Violência no Rio

Na noite de terça feira, 29 de novembro de 2005, ocorreu o impensável no Rio de Janeiro. Cinco pessoas, inclusive uma criança de um ano e um mês de idade, juntamente com sua mãe, morreram queimadas dentro de um ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá), da Viação Rubanil, na Penha, subúrbio ao norte de nossa cidade. Este bárbaro assassinato eleva a violência a um novo e assustador patamar em nosso município. Outras 14 pessoas ficaram feridas.

Lamentamos profundamente que os principais governantes do Estado do Rio de Janeiro sequer tenham vindo a público para explicar o inexplicável ou, pelo menos, se colocar ao lado dos que sofrem. Embora saibamos das especificidades constitucionais no trato da segurança pública, lamentamos que os governantes municipais, estaduais e da federação não tenham expedido  uma palavra oficial de indignação. Isso é revoltante! A impressão que oferecem é que o que acontece nas ruas desta cidade (cada vez mais desertas à noite) não diz respeito a ninguém da esfera pública. Com tal indiferença sugerem, ainda, que a vida das pessoas comuns pouco ou nada vale. Lamentamos que aqueles que têm desempenhado funções no Legislativo e no Executivo revelem questionável competência  para governar o município e o estado do Rio de Janeiro, espelhando um triste legado que insiste em se perpetuar na política brasileira.

Estamos consternados com o modelo de políticos evangélicos brasileiros que, em geral, são populistas, amadores e despreparados. Sua permanência no poder tem se dado em função do uso e abuso de clichês, bem como do desprezo pelo nome de Deus, usado com fins eleitoreiros, em seus “showmícios”. Eles traem uma importante herança da tradição evangélica: políticos cristãos comprometidos com a glória de Deus e com a promoção do bem-estar na sociedade.

É chocante ver que a população de nosso estado parece estar conformada e não esboça reação! Nada que afete de forma significativa a rotina em que vivemos, como passeatas, suspensão de eventos festivos, luto, ou qualquer outra ação que possa deixar bem claro que algo muito grave está acontecendo entre nós. Lamentamos, especialmente, o fato de milhares de evangélicos, capturados pelos discursos daqueles políticos “irmãos”, não demonstrarem consternação por tal quadro. Vivemos, tristemente, sob o signo da “banalização do mal”, como concluiu a filósofa Hannah Arendt. Como cariocas e fluminenses deveríamos estar clamando: “Chega de impunidade, chega de violência, chega de incompetência!”

Em tudo isso, como cidadãos brasileiros e como cristãos evangélicos, preocupados com os rumos de nosso estado (que também refletem a crise de toda a nossa nação), fazemos desta carta nosso manifesto contra essa aviltante situação. Reafirmamos nosso compromisso de intercedermos em favor de todos, em especial por aqueles que foram atingidos por essa tragédia, clamando por aqueles que se acham investidos de autoridade a fim de que sejam chamados à responsabilidade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito (1Timóteo 2.1-2). E esperamos alcançar mais sabedoria na escolha de nossos próximos governantes, objetivando termos, nessa posição, homens e mulheres que não voltem as costas a seu próprio povo.

10 Comentários para “Evangélicos Repudiam o Silêncio Diante da Violência do Rio: 2005”

  1. Juan de Paula 20 Julho 2010 às 17:41 #

    Franklin,

    por mais que haja saudade daqueles tempos de convivio na PIB Cosme Velho, fico triste porque as coisas por aqui não melhoraram.

    Mas a postura não pode ser de acomodação e ficar sentado dizendo “é o fim dos tempos”. A inquietação e a esperança que há no Evangelho de Cristo antecipando o Reino futuro a nossa realidade caótica no Rio de Janeiro será usada por Deus para transformação através de um derramamento do Espírito em um avivamento entre nós.

    Essa é a nossa (Evangélicos do RJ) oração.

  2. Daniel Gewehr 20 Julho 2010 às 20:40 #

    Não seria então o caso de cristãos maduros, com uma cosmovisão sadia, real temor a Deus e competência para o exercício de cargos públicos mobilizarem-se politicamente a fim de que, através dos mecanismos democráticos, serem revestidos do poder do Estado, chamando para si a responsabilidade de governar a nação e fazer valer as prioridades que reflitam um profundo compromisso com a verdade e a justiça?

  3. Thomas Tronco 21 Julho 2010 às 9:46 #

    De lá para cá piorou. Agora, quando acontece um absurdo, seja em qualquer área que afete politicamente as lideranças, os chefes das autarquias aparecem na TV e nos jornais, ou dizendo que não sabiam de nada, ou reclamando de perseguição com interesses eleitorais. Solução que é, nada. Posicionamento contrário ao mal, só em sonho.

    O pior de tudo nem é isso. É a falta de memória que o eleitorado tem. Não importa o que um político faça. Se a música da sua campanha for mais bonita, ele ganha novamente.

    Em contrapartida, as opções “evangélicas” para o eleitorado que crê no Senhor Jesus é um fiasco. Parece que nos resta cada vez mais aguardar a volta de Cristo, o que também nos lembra da responsabilidade de pregarmos o Evangelho verdadeiro. Se não temos condições de mudar os rumos do mundo atual, podemos (e devemos) anunciar a vida futura, onde o governante é Justo e a ordem e a paz serão o dia a dia dos que lá estiverem.

    “Façamos campanha para o nosso Salvador”.

  4. Túlio 21 Julho 2010 às 11:52 #

    Franklin,
    A igreja não tem forças porque tem se alimentado de uma sopa rala com pouquíssimo conteúdo bíblico. Nesse sentido, mais uma vez, lembro sua palestra na Igreja Preasbiteriana do Rio de Janeiro. Considero que a divulgação dela, na forma de um livreto, pode ser um instrumento muito útil para despertar consciências e vocações que poderão contribuir para mudar o quadro descrito por você.
    Abs, Túlio

  5. Pr. Edson Sobreira Alves 21 Julho 2010 às 12:23 #

    Meu caro amigo Franklin Ferreira, infelizmente essa realidade é clara no estado do Rio de Janeiro, no país e no mundo. Cada vez mais a violência se acumula e cresce assustadoramente, também é claro que aqueles que estão no poder concedido por Deus, e se dizem cristãos evangélicos caem nas garras do sistema e se envolvem nele deturpando totalmente sua visão de mudança. Se nós pensarmos nos governos de José no Egito e Daniel na Babilônia, podemos ver o quanto nossos governantes evangélicos estão longe deste padrão, o que falta neles é o temor do Senhor e o que nos resta é abrir os olhos das novas gerações, dos nossos filhos, das crianças, dos adolescentes e jovens de nossas igrejas, devemos mostrar sempre a realidade e também prepará-los para futuras lideranças, não quero dizer com isso que é impossível mudar aqueles que já estão no poder. Escolher as pessoas certas na próxima eleição é uma saída, mas será que os jovens e adultos que irão votar estão devidamente preparados? Uma carta, um abaixo assinado, uma passeata, um artigo, são meios de divulgação da nossa indignação, não podemos parar e ficar de braços cruzados.
    Pr. Edson Sobreira Alves
    Igreja Batista Regular Maranata – Crato – Ce

  6. Franklin Ferreira 21 Julho 2010 às 14:43 #

    Oi Tulio
    Agradeço muito seu apoio. Aquele material será publicado oportunamente, como parte de outra obra de TS; talvez até o fim do ano já esteja nas livrarias.

    Abs
    Franklin

  7. Franklin Ferreira 21 Julho 2010 às 14:46 #

    Oi Juan

    Fizemos lá o que estava ao nosso alcance; e vc está correto: precisamos incluir em nossas liturgias momentos de confissão de pecados e súplica por um derramamento do Espírito. Esta é a celebração de que Deus se agrada. E se Ele não avivar sua igreja… ai de nós!

    “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.” (2Cr 7.14)

  8. Franklin Ferreira 21 Julho 2010 às 14:50 #

    Oi Daniel

    Um irmão acima comentou da fraqueza da igreja, no RJ e no resto do país. Uma igreja que não é saudável, não produzirá membros saudáveis. Precisamos limpar nossas comunidades do pecado e de ensinamentos sub-cristãos ou heréticos, atacar a timidez no testemunho e a má vontade com a santificação… tendo igrejas saudáveis, debaixo da graça, Deus irá levantar políticos como Kuyper e Wilberforce, para mudar este país. Precisamos de gente nos centros de decisão para nos representar; se nos omitirmos na esfera política, outros determinarão as leis que devemos seguir. Como está acontecendo neste momento, na medida que um partido, tal qual os porcos da fazendo imaginada por Orwell, vão estendendo suas garras não somente na esfera ética, mas também no âmbito familiar e privado.

  9. Franklin Ferreira 21 Julho 2010 às 14:53 #

    Muito obrigado por suas percepções, Edson. Gosto muito do que podemos aprender sobre a temática política no livro de Ester. Sem Mordecai, Ester abandonaria seu chamado. Políticos evangélicos que não estão claramente ligados à uma comunidade local, debaixo da pregação e ensino, disciplina e ordenanças, e não prestam contas à sua igreja local, fatalmente se corromperão. Se vamos eleger um irmão na fé, que seja alguém que tenha bom testemunho e receba nutrição de uma igreja local claramente evangélica.

    Também devemos incluir em nosso trabalho pastoral uma dimensão de protesto público… roubaram um membro ou vizinho de nossa igreja? Protestemos pelos meios lícitos e às esferas competentes, exigindo segurança pública de qualidade – para isto é que Deus estabeleceu as autoridades e por isto pagamos impostos (cf. Rm 13.1-7).

  10. Danilo Neves 23 Julho 2010 às 9:35 #

    Olá, Franklin. Sou seminarista pelo seminário presbiteriano conservador. Por eu não ter seu e-mail, vou usar esse espaço para consultá-lo sobre um livro. Ele se chama “A Cruz De Hitler”, de Erwin Lutzer (editora Vida). Eu o li. Sabendo que você tem pesquisado sobre a igreja e teologia alemãs, gostaria de saber que avaliação você faz dele, caso o tenha lido. Ele foi o primeiro contato meu com uma obra que se propõe a avaliar teologicamente o holocausto. A princípio, achei interessante, mas percebi que as posições escatológicas do autor e também algumas citações (alguns Apuds) são, digamos questionáveis. Como tenho lido e engatinhando sobre o assunto, gostaria que você, se possível, me indicasse material sobre ele. Espero que entenda a minha necessidade e desde já obrigado, irmão. Graça e paz, em Jesus, o Filho de Deus. Amém.


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